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AULAS DE TEATRO



QUEM DISSE QUE NÃO TEM FÍSICA NO TEATRO?
Equilíbrio
Habilidade humana para manter ereto o corpo e mover-se no espaço – é o resultado de uma serie de relações musculares e tensões dentro do organismo. Quanto mais complexo se tornam os movimentos mais o equilíbrio é ameaçado e uma serie de tensões se estabelece para impedir a queda do corpo.
O equilíbrio do corpo humano é constituído de vários terminais sensórios motores, incluindo elemento externo-receptivos(visual, auditivo, tátil) e elementos auto-receptivos (muscular, tendinoso, articular e esquelético).Sabemos que o homem na posição vertical ou em repouso nunca esta imóvel: ele oscila seguindo ritmos particulares e complexos.Esses ritmos sao estabelecidos pelos vários sistemas reflexos sensórios motores, que asseguram a regularização da atividade tônica postural. Em todas as posições assumidas pelo corpo, nas quais se apóia sobre ambos os pés, o centro de gravidade se movera ao mesmo tempo que o eixo do corpo, da linha perpendicular de gravidade.
A amplitude e a freqüência dessas oscilações do eixo do corpo podem ser medidas com o stato-cinesímetro.este aparelho fornece as informações de duas formas:
-Vetorial – quando os movimentos anterior, posterior e lateral são registrados – este é o stato-sinesograma.
- linear - quando os deslocamentos anterior e posterior são diferenciados dos deslocamentos laterais e são registrados no tempo. Este é o stablilograma.
O centro de gravidade de um corpo é o ponto de equilíbrio de todas as partes desse corpo e que a linha da gravidade é uma linha perpendicular ao chão a partir deste ponto.
O centro de gravidade de um corpo está situado corretamente quando a linha de gravidade alcança o perímetro da base de apoio.Para manter o corpo na vertical, numa posição confortável e simétrica necessitamos, necessitamos somente de uma participação pequena dos músculos, já que o trabalho principal é feito pelos ligamentos.
A característica mais comum dos atores e dançarinos de diferentes culturas e épocas é o abandono do equilíbrio cotidiano em favor de um equilíbrio “precário” ou extracotidiano.
O equilíbrio extracotidiano exige um esforço físico maior, dilata as tensões de tal maneira que o ator bailarino parece estar vivo antes mesmo que ele comece a se expressar.
Podemos perceber o uso do equilíbrio precário principalmente nas tradições orientais (,Kabuki,odisse,etc.), na Mímica e no Balé ocidentais, todas elas técnicas extremamente codificadas. O uso deste equilíbrio de luxo exige um excesso de energia.
Uma mudança de equilíbrio resulta numa serie de tensões orgânicas especificas, que compromete e enfatiza a presença material do ator, numa fase que precede a expressão intencional. O ator que não consegue dispor-se a este equilíbrio e dinâmico não tem vida na cena.
A oposição de tensões diferentes no corpo do ator é percebido cinestesicamente pelo expectador como um conflito entre forças elementares,o equilíbrio deve torna-se dinâmico.O equilíbrio dinâmico transmite a sensação de movimento no espectador mesmo na imobilidade.
A dança desconhecida de brecht. A influencia deBRECHT estava acima das suas teorias, foi devida também a sua habilidade de fazer emergir em seus atores.O diário guardado por Hans Joachim Bunge o assistente de brecht em o Circulo de Giz é um exemplo do seu estilo único.
Eugênio Barba
Trecho do livro A ARTE SECRETA DO ATOR

ESCOLAS OU PRISÕES?
Um dia observando uma aula de artes em uma escola pública percebi que pouca coisa mudou em décadas.Perguntei a professora o que ela seguia e ela me respondeu: “OS SETE SABERES – EDGAR MORIM (O erro e a ilusão, os princípios do conhecimento pertinente, ensinar a condição humana, ensinar a identidade terrena, enfrentar as incertezas, ensinar a compreensão, a ética do gênero humano). Não percebi muito saber naquela forma de ensinar, crianças sentadas em carteiras esperando ordens sem direito de opinar e o pior sem direito de usar a criatividade, não tendo a chance de descobrir.Ela mostrava e traçava cada passo, o que as crianças tinham que fazer igualzinho a ela, senão não teriam nota.
Isto é um total absurdo no qual eu conheço por experiência própria quando fazia copias e mais copias em tudo inclusive na aula de arte. Porém no meu tempo a escola era tecnicista, estávamos na ditadura e não importava que as pessoas fossem criativas, mas sim aprendessem o bastante para desenvolver uma única função mecanicamente durante toda a vida. Passou o tempo e me pergunto: Por que evoluímos tão pouco? Terá sido por não termos até hoje estabelecido o que já é lei no PCN ou o PCN é tão contraditório, confuso e retrogrado que não valha a pena?
Se eu já estava confusa fiquei mais ainda, principalmente por ser uma questão direta passou-se uma geração e não houve mudanças significativas. O professor de arte realmente tem uma batalha a travar, contudo se não esta disposto a ser um guerreiro por que tantos professores entram nesta luta, que não é só na área de artes e sim de toda educação. Quando será que os educadores e os poderosos vão entender que as pessoas exercitando a sua sensibilidade e criatividade serão criativas em qualquer setor que sigam ? Vai demorar..
Essas são as minhas primeiras impressões como professora de escola pública em relação a estrutura física, feita há dois anos. Prefiro não revelar o nome da escola,é igual a muitas outras...
...O primeiro choque ao entrar foi um retorno a minha infância traduzido em cores, sensações e medo. A escola que fora construída no final da ditadura militar conservava todos os detalhes da época de sua construção, fielmente, com seus tijolos aparentes, paredes pintadas de rosa (não sei explicar, mas muitas escolas construídas em Salvador nesta época tinham sempre algumas paredes rosa), e suas grades que estão por toda parte.
O espaço físico da escola é enorme, porém o espaço construído é pequeno para quantidade de alunos e professores. E fiquei na dúvida se era uma escola ou uma prisão. Pois a idéia que vem a cabeça todas as vezes que conheço uma nova escola publica principalmente, mas não excluo as particulares, que às vezes são tão ou mais gradeadas.
A nossa realidade de segurança nos prende em grades em nossas casas, nas instituições, nos obrigam a obedecer e seguir as regras de estar cercados e já nos acostumamos. Tudo isso me leva a refletir sobre as coincidências que existem entre as prisões, os reformatórios, as escolas e as fábricas. O pior é que não vejo o interesse de mudança, pelo contrário a cada dia as escolas se parecem mais e mais com prisões. Fomos depois de uma breve acolhida do Diretor em sua sala, passamos então a sala de professores para aguardar o momento da aula. Achei tão pequena a sala dos professores, fiquei pouco a vontade no ambiente, me sentia incomodada de estar ali, como se invadindo um espaço que não era meu, e ao mesmo, tempo muito exposta pela proximidade dos outros professores que ainda não conhecia e que eu não tinha a certeza se teriam ou não consciência da importância que as aulas de teatro poderiam ter, assim como qualquer outro conhecimento.
Outro fato que constatei foi o acesso à escola, aos pavimentos, as salas serem por escada não existindo nenhuma rampa, em tempos de inclusão nas escolas vejo como um exemplo de uma triste realidade, a escola está totalmente despreparada para receber estes alunos e alunas especiais, se no espaço físico não existem simples rampas imagine toda a dificuldade enfrentada por estes alunos. Como entrar na sala? Sendo carregado?E a principal pergunta é: as escolas querem estes alunos? Talvez seja uma hipocrisia querer incluir se não existe nenhuma preparação para recebê-los, o que pode acontecer é uma desistência total desses alunos desacreditando que isso seja possível. Não estou afirmando que não deva existir a inclusão, ela deve existir sim, contudo tem que haver uma reformulação do ensino como ele é hoje e dos espaços físicos, não podemos ignorar que estes alunos precisam e devem ter uma atenção especial sim.Foi instituída que a inclusão deve acontecer, contudo seria necessária uma verdadeira revolução estrutural para receber estes alunos, não a simples construção de rampas providenciadas em algumas escolas, as deficiências físicas tem diferentes necessidades , mas mesmo preparadas as salas estão super lotadas e a depender da dificuldade deste aluno ou aluna que demanda uma atenção maior atenção, como o professor sobrecarregado fará isso? Se o que vemos é que na realidade as escolas estão precárias para receber qualquer aluno. Realmente medidas urgentes precisam ser tomadas, e os professores estão preparados? Com certeza não.
Finalmente chegou o momento da aula e quando entrei na sala os alunos estavam nos esperando e quando anunciamos que éramos os professores de teatro trataram de sentar comportadamente nas suas cadeira e nos olharam com olhos curiosos e examinadores com uma postura bem artificial. Digo artificial porque estavam como que padronizados em uma postura de esperar visitas, não eram naturais, parecia uma atitude ensaiada. Apresentamos-nos e propomos logo uma quebra no cotidiano deles: pedimos que colocassem as cadeiras encostadas nas paredes em volta da sala, e que se levantassem e formassem um circulo com as mão dadas.
O problema já começou aí, a minha noção de início de aula, que eu e meu colega Cláudio tínhamos planejado com o círculo, a valorização de todos na mesma condição e todos se vendo, caiu por terra, porque na sala não cabia uma roda tão grande com trinta e três alunos. E tivemos que optar por uma forma que só queríamos usar depois da terceira aula que seria a divisão da turma entre os que realizavam e os que observavam.
Todos os alunos participaram em uma grande algazarra, e pareciam se divertir mais observando do que fazendo, mesmo tendo alunos que não quiseram fazer o papel de observadores. Na verdade as aulas nunca obtinham os resultados que eu imaginava, mas em diferentes níveis os alunos realmente estavam envolvidos.
Terminando a primeira aula em que tinha sido baseada em muito movimento e sons, nos demos conta que não poderíamos fazer a nossa avaliação coletiva do jeito que queríamos e estávamos acostumados, “o circulo”, de novo não aconteceu e tivemos a certeza de algo mais grave: não tínhamos chão para trabalhar, parece engraçado, mas um círculo de alunos sentados no chão e dando suas opiniões e expondo seus questionamentos é de grande importância para um professor de teatro, ou posso dizer melhor, é de grande importância para mim como professora, pois a maneira como espaço é gerido tem efeitos cognitivos e emocionais nos alunos. O circulo facilita também a coesão da turma, melhorando a distribuição de atenção.
O espaço escolar é imposto em todos os sentidos aos alunos, onde há uma hierarquia a qual eles devem obedecer e são vigiados o tempo todo sendo deles exigido um comportamento “normal” e obediente para ser considerado um bom aluno. As salas de aula estão superlotadas por alunos da qual se espera a imobilidade. Eles comportam-se como que esperando uma punição e daí quando pensam que estão sendo observados simulam esta imobilidade que parece ser o mais desejado pela maioria das instituições de ensino.
Segundo Henri Wallon:
“(...) a motricidade tem um caráter pedagógico tanto pela qualidade do gesto quanto pela maneira com que ele é representado. A escola ao insistir em manter o aluno imobilizado acaba por limitar o fluir de fatores necessários e importantes para o desenvolvimento completo da pessoa”.
E nos vimos em um grande dilema, as atividades não poderiam conter exercícios, trabalhos, relaxamentos no chão, pois este tinha uma sujeira que parecia ter sido depositada ali há muito tempo. Nós não poderíamos expor as crianças aquela sujeira, seria um capricho inútil insistir e até uma grande falta de respeito, assim pensamos e decidimos adaptar todas as atividades de forma que elas não acontecessem no chão.
Considero isso já uma grande perda, pois o fato de uma aula ser dada em que existem momentos que professor e alunos têm o campo de visão na mesma altura, no qual eles podem ver o seu espaço de estudo de outros ângulos e níveis trazem novas possibilidades.
Uma outra coisa que me chocou foi o fato de todas as salas terem grades nas portas. Questionei-me eram alunos ou prisioneiros?Se for um resquício do tempo da ditadura na qual a escola fora construída, porque até hoje elas não foram retiradas? Os alunos comportavam-se quase que pedindo para serem trancados, como explicar isso? Talvez da mesma forma que eles agiam com a presença de alguns funcionários ou professores, que é muito comum em todas as escolas, basta à presença e eles mudam o comportamento têm medo até de expor uma opinião.
As grades estão lá para reforçar esse poder ou seria o desespero de ter, de conter pessoas embrutecidas pelo meio em que vivem e que não estão acostumadas nem preparadas para lidar com a liberdade, com idéias, e por isso estas são tolhidas e contidas de todas as formas possíveis, ou existe o medo de que eles possam vir a exercer este direito?
Segundo Focault:
“(...) a disciplina é interiorizada: Esta é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição”.
Isso explica o fato que ocorreu durante uma aula na qual utilizando um prato e uvas durante uma improvisação eles partiram para cima das uvas com violência quebrando o prato. Ficaram então perplexos com a atitude minha e de Cláudio que agimos de forma tranqüila e nos questionaram porque não brigamos com eles, nem os castigamos.
A criatividade é rebelde sim e como lidar com o fato de que durante uma aula em que os meninos estavam em um caos. Mas um caos criativo; Em que idéias estavam sendo postas em práticas quando energicamente foram chamados atenção por uma funcionária que surgiu de repente, uma censora e receberam a ordem de ficar sentados e calados? Seria isso um reforço ao panoptismo tão presente e disseminado hoje em nossa sociedade?
Segundo Michel Foucault:
“Panoptismo implica o observador estar de corpo presente, em tempo presente em tempo real a observar”.
Um outro problema é o fato das salas serem extremamente abafadas sem ventilação o que torna qualquer atividade que exija movimento um verdadeiro sofrimento, as crianças suavam muito e sentiam às vezes até dificuldade de respirar, isto sem falar na iluminação que é artificial e precária, com certeza aquela iluminação não é suficiente e pode inclusive criar problemas visuais, desconforto. O que não é prejudicial só na aula de teatro.
Um outro ponto é o barulho, os sons de fora, de outras salas, dos corredores invadiam a nossa aula com violência, da mesma forma em que a nossa também deveria estar incomodando as outras turmas. Aula de teatro realmente contém momentos de silêncio, mas na maioria das vezes a criatividade faz barulho e me pergunto como ter uma aula de teatro na qual ao lado o professor estará fazendo cálculos matemáticos ou lendo um texto com os alunos e o professor de teatro ensaiando um coro com os seus alunos? Logo este professor será chamado atenção, aula de teatro nem sempre é silenciosa e isso não quer dizer que não está funcionando, pelo contrário, mas como resolver o problema?
Sei que as escolas têm inúmeros problemas com relação às verbas insuficientes e que quando elas são enviadas são destinadas para reposição de estragos feitos na maioria das vezes pelos próprios alunos, contudo é muito justo que as escolas sejam pensadas com espaços extremamente necessários que são as bibliotecas e salas destinadas ao ensino da arte, o desenvolvimento cognitivo do ser precisa ser levado a sério.
È necessário um espaço para aula de teatro sim, pois como é desconfortável e inadequada uma aula de artes plásticas em uma sala que não tem pelo menos mesas e uma pia para lavar as mãos, dar aulas de teatro com uma sala totalmente entulhada de cadeiras, escura, sem ventilação e com um chão frio e imundo é uma violência aos alunos.
Pensamos em algum momento durante o inicio do processo usar outros espaços da escola, tinha um salão no refeitório, mas era um lugar de passagem e como os alunos são muito dispersos, ficava muito difícil, pois a todo momento alguém passaria e iria interferir na aula de uma maneira que não seria muito positiva, até porque os alunos tinham tido poucas aulas de teatro e ainda não estavam sensibilizados com a aula o suficiente para que interferências externas não os influenciassem, para isso eu precisaria de um pouco mais de tempo.
Outros espaços externos tinham o inconveniente de não ter piso, era chão de terra, descobertos e como a época que foram dadas às aulas sempre chovia, tinha o inconveniente de ter lama o que tornava o espaço inviável.
A sexta e última aula para mim foi uma maravilhosa alegria, resolvemos passar um filme para eles na sala de vídeo, para nossa surpresa era equipada e tinha um piso limpo, se tratava de uma sala que seria inaugurada por nós. Estava limpa com paredes pintadas e continha equipamentos novos. Nossa decepção foi como não sabíamos ligar o aparelho, pedimos ajuda a funcionários da escola que tentaram nos ajudar, mas em vão, pois sabiam do instrumento tanto quanto nós. Com a ajuda de um colega de estágio conseguimos ligar o aparelho a tempo para a aula e eu fui buscar os alunos na sala.
Percebi que ao entrar na sala eles tinham uma outra atitude, estavam mais sérios, compenetrados, respeitando o momento e eu sentia neles um misto de orgulho e respeito pelo espaço, como se sentissem mais valorizados.Foram convidados a sentar no chão e isso aconteceu sem nenhum protesto, quando começou o filme eles assistiram com bastante atenção.
Com exceção de um grupo de adolescentes compostos por três meninas e um menino que nos deu muito trabalho durante o processo, todos estavam em um estado diferente do que o que eu sempre observava.
Os adolescentes citados não aceitavam a diferença de idade da turma que era bem mais nova que eles, uma diferença de até quatro anos, e talvez por isso não participassem das atividades e até atrapalhavam os que participavam, era uma forma de chamar atenção e neste dia não foi diferente, porém os outros estavam tão compenetrados que tudo correu bem e até mesmo este grupo mudou um pouco o comportamento.
Logo depois do filme conseguimos fazer a tão sonhada roda e eles pela primeira vez se colocaram, deram as suas opiniões, realmente escutaram-se.
Será que tudo isso aconteceu por estarem os alunos em um ambiente mais humanizado? Limpo, organizado e bonito? Segundo Henry Wallon:
“(...) as condições ambientais provocam alterações qualitativas no seu comportamento em geral”. “A pessoa tem que ser considerada como um todo. Afetividade, emoções, movimentos e espaço físico se encontram num mesmo plano: humanizar a inteligência.”
Mas do que nunca as escolas precisam ser humanizadas, reformadas ou construídas pensadas em todas as possibilidades de conhecimentos que podem ser desenvolvidos neste ambiente que pode e deve ser acolhedor e abandonar os resquícios rançosos de outros tempos em que à escola era mais um ambiente de punição do que de aprendizagem, e dentro dessa reforma que precisa ser não somente físico, mas também no pensamento, precisa ser pensado e realizado um espaço também para arte. Onde as aulas possam vir acontecer com a sua devida e necessária importância.


Bibliografia:
Morin,Edgar.A Cabeça Bem Feita: Repensar e reforma,reformar o pensamento;tradução Eloá Jacobina – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000
Sites:
http://.centrorefeducacional.com.br/wallon.htm
http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/160_mar03/html/pensadores
http://www.edu.fc.ul.pt/docentes/opobo
http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/160_mar03/html/pensadores
http://www.edu.fc.ul.pt/docentes/oposohttp://.centrorefeducacional.com.br/wallon.htm
TEATRO E EDUCAÇÃO
Teatro é uma forma de inclusão, de rompimento de barreiras, em um mundo onde a cada dia o ser humano é pensado como mais um, quando deveria ser respeitado por suas características individuais e levado ao crescimento participativo de uma coletividadesignificante do ponto de vista do ser por suas individualidades. O fazer teatro colabora e influencia a descoberta do eu e do outro. (Gosto de repetir isso!)
A arte tem um papel muito importante na formação do ser humano no seu processo de desenvolvimento cognitivo e o teatro, sendo uma das formas mais completas de arte, contribui para isso. É uma forma de interagir com o meio, com outras pessoas e de se descobrir, um processo lúdico de obter conhecimentos, desenvolver a criatividade, trabalhar a leitura, desenvolver o senso crítico, a descoberta do corpo.
Seria muito interessante que todos tivessem acesso ao teatro, seja na forma de aulas e/ou como apreciação.
Ultimamente tenho participado de um projeto no qual apresentamos (grupo Oco Teatro Laboratório) em escolas uma montagem curta que tem feito muito sucesso. Com um tema polémico e obrigatório: sexualidade. Em mais ou menos quinze minutos com humor e muita música tratamos do tema de forma lúdica e direta.
É interessante ver como a mensagem chega rápida e leve, como esses adolescentes e crianças participam. O que estou fazendo nesse momento não é simplesmente divulgar o trabalho. estou dando um exemplo de como se pode informar através do teatro. Um trabalho didático não precisa ser enfadonho e simplesmente descritivo. Pode ser engraçado, direto, simples e de qualidade.
Na maioria das vezes esse é o primeiro contato com o teatro. Tá, não estou contando nenhuma novidade, mas então por que não ser valorizado? E vamos arregaçar as mangas...

TEATRO COM ADOLESCENTES SURDOS

Tá valendo a pena Oco
Minha pesquisa de teatro se estruturou a partir de uma pesquisa-ação iniciada no processo de estágio realizada no CAS(Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de atendimento às Pessoas com Surdez Wilson Lins). tendo assim disponível a turma da segunda série do ensino fundamental que se constituía de sete adolescentes de 13 a 15 anos, quatro com total comprometimento da audição.
Decidi trabalhar com toda a exuberância e qualidade de movimentos através do corpo, das expressões, da língua de sinais, usando como ponto de partida além de exercícios e jogos teatrais, a primeira parte do filme mudo de Charlie Chaplin: Tempos Modernos
Não pensei em fazer esse trabalho usando o contexto político original do filme (apesar de não ter excluído a possibilidade, o que veio a acontecer naturalmente no trabalho), mas sim usa-lo como inspiração através de sua movimentação frenética em relação ao trabalho e vida de pessoas. A idéia principal foi discutir a dificuldade real que existe de comunicação a sociedade, pois as pessoas não têm mais tempo para prestar atenção umas às outras, de ouvir, que dirá se dedicar uma atenção de comunicação mais especial.

Uma linda e enriquecedora experiência, ainda tem assunto, depois escrevo mais sobre...

TRECHO DA MINHA PESQUISA TEATRO COM SURDOS
A existência do individuo humano sempre foi marcada por uma tentativa de normalização, padronização, porque o diferente, o que não se compreende sempre incomoda. O fato é que em toda trajetória da história, o que é diferente do padrão sempre foi rejeitado em algum nível. Pessoas com pensamentos e idéias que fujam às regras ou que estejam muito à frente do pensamento vigente ao momento, aparência fora do padrão ou alguma espécie de deficiência sempre sofreram preconceito.
Segundo o dicionário Aurélio preconceito é uma idéia preconcebida, intolerância ou aversão, má vontade gratuitas contra pessoas ou crenças. E em toda história o que se viu em relação às pessoas com algum tipo de deficiência foi o preconceito, que chegava a limites extremos de se considerar esses indivíduos sem direito algum, inclusive em alguns casos, tratados como animais ou em casos extremos sem o direito à vida, pois eram considerados inferiores e sem a capacidade de sobreviver.Segundo as palavras de Oliver Sacks:
"Somos notavelmente ignorantes a respeito da surdez (...), muito mais ignorantes do que um homem instruído teria sido em 1886 ou 1786. Ignorantes e indiferentes. Nos últimos meses, mencionei o assunto a inúmeras pessoas e quase sempre obtive respostas como: “Surdez? Não conheço nenhuma pessoa surda, Nunca pensei sobre isso. Não há nada de interessante na surdez, há?” Essa seria a minha própria resposta alguns meses atrás". (Sacks,2005,pg. 15).
As palavras de Oliver Sacks é uma reflexão sobre a indiferença. Essa indiferença se faz notar, quando vemos casos de crianças com deficiência auditiva que só começam a freqüentar a escola tardiamente, quando são isoladas muitas vezes dentro de suas próprias casas, ou quando ainda se percebe que falta muito para aperfeiçoar os processos educacionais relativos aos surdos, que é o que define sua inclusão na sociedade.
O deficiente auditivo não tem comprometimentos mentais. Infelizmente ao longo da história e ainda hoje pessoas são impossibilitadas de levar uma vida funcional e independente por falta de um encaminhamento educacional satisfatório, que lhe dê instrumentos para superar as dificuldades de aprendizado.

É preciso que cada vez mais a lingua de sinais seja difundida e valorizada.Em outro momento continuo o tema.

Carta de Eugênio Barba



Freqüentemente eu estive tocado pela ausência de seriedade no teu trabalho. O que não é falta de concentração ou boa vontade da tua parte. Mas que se exprime por duas atitudes. Primeiro de tudo, tem-se a impressão que teus atos não são ditados por uma convicção interior ou por uma necessidade inelutável que se manifestaria por exemplo na execução de um exercício, de uma improvisação ou de uma cena. Tu podes trabalhar estando concentrado, sem poupar-se, teu gestos podem ser tecnicamente precisos, mesmo assim tal jogo não parece menos vazio e eu não creio no que fazes. Teu corpo não diz se não uma coisa: "eu obedeço a uma ordem exterior". Os nervos, o cérebro, a coluna vertebral não estão engajados e só tua epiderme gostaria de fazer acreditar que tudo isso é vital para ti. Tu não experimentas por ti mesmo a importância do que queres fazer os espectadores acreditarem. Como podes assim fazer compreender ou admitir que o teatro é o lugar onde as convenções e os entraves sociais devem desaparecer a dar lugar a uma comunicação franca e absoluta. Tu, representante da coletividade, tu estás num lugar onde se manifesta a necessidade de cada um se sentir aceito, onde as humilhações, as experiências degradantes pelas quais tu passaste, teu cinismo, que é uma atitude de auto-defesa, teu otimismo, que é mesmo a irresponsabilidade e o teu sentimento de culpa aparecem ao lado da tua necessidade de amar, da tua nostalgia de um paraíso perdido procurado talvez no passado, na tua infância, no calor de alguém que te fez esquecer a angústia, num tempo que tu não te colocavas questões e onde exigias uma resposta. Todos os seres presentes nesta sala são tocados se, durante a representação, tu efetuas um retorno às tuas raízes, em direção a essas experiências humanas comuns que permanecem escondidas: verdadeiro laço humano que te liga aos outros. A segunda tendência que vejo em ti é o temor de encarar toda a seriedade desse trabalho: tu experimentas algo como uma necessidade de rir, de fazer pouco, de comentar com o que tu e teus camaradas executam. É como se quisesses fugir a responsabilidade que sentes em relação ao próprio trabalho e que consiste em estabelecer uma comunicação com os outros homens e assumir as consequências do que revelas. Tu tens medo da seriedade desse trabalho, de estar à margem do que é permitido: tem medo que isso seja sinônimo de fanatismo, de aborrecimentos ou de isolamento profissional. Mas num mundo onde os homens nos rodeiam não acreditam mais em nada ou fingem que creêm para ficarem tranqüilos, aquele que esmiúça dentro dele mesmo para se colocar questões sobre sua condição, sobre sua falta de ideais, sobre sua necessidade de vida espiritual, é tomado por um fanático ou por um ingênuo. Num mundo onde trapacear é a norma em vigor, aquele que procura a sua verdade é tomado por hipócrita. Acredito que não refletiste jamais sobre o fato de que tudo isso que liberas, dás forma ou completa no teu trabalho, é uma manisfestação de vida e merece ser olhada com respeito. Teus atos frente a coletividade de espectadores devem ser habitados da mesma força que marca a lâmina incandescente do carrasco ou daquela voz ardente do Sinai. Somente então teus atos poderão continuar a viver no espírito e no interior do espectador com aquela necessidade que provoca conseqüências imprevisíveis. Quando Dullin se encontrava no seu leito de morte, o rosto dele se contorcia, deformando-se segundo as máscaras dos grandes papéis que tinha vivido: Smerdiakov, Volpone, Richard III. Não era somente o homem Dullin que morria, mas também o ator e todas as etapas de sua vida. Se eu perguntar porque tu te tornaste ator, me responderás que queres te exprimir e te realizar. Mas o que significa realizar-se? Quem se realiza? O chefe de escritório Hansen que vive sua existência respeitável, sem aborrecimentos, jamais atormentado por questões que continuam sem resposta? Ou o romântico Gauguin que, após ter rompido com as normas socias, terminou sua existência na miséria de um pobre vilarejo polinesiano, Noa-Noa, onde ele acreditava ter reencontrado a liberdade perdida? Numa época em que a fé religiosa é vista como uma neurose, falta-nos a escala com a qual medir o sucesso ou fracasso da nossa vida. Quaisquer que tenham sido as motivações pessoais e não percebidas que te troxeram ao teatro, agora que tu entraste nessa profissão, deves encontrar um sentido que ultrapasse tua própria pessoa e que te situe socialmente frente aos outros. Não se pode preparar uma vida nova senão nas catacumbas. Aí está o lugar daqueles que, em nossa época, procuram um engajamento espiritual e não têm medo do difícil confronto. Isto supõe coragem: a maior parte das pessoas não têm necessidade de nós. Teu trabalho é uma forma de meditação social sobre ti mesmo, sobre a tua condição de homem numa sociedade e sobre os acontecimentos que tocam no mais profundo de ti através das experiências do nosso tempo. Cada apresentação nesse teatro precário que choca o pragmatismo cotidiano, pode ser a última, tu deves considerá-la como tal, como tua possibilidade de te tocar, dirigindo aos outros e conta pestada de teus atos, teu testamento. Se o fato de ser ator significa tudo isso para ti, então um novo teatro vai nascer, uma nova maneira de apreender a tradição, uma nova técnica. Uma relação nova se estabelecerá entre ti mesmo e os homens que à noite vêm te ver, porque eles têm necessidade de ti.


Eugenio Barba, diretor e fundador do Odin Teatret Laboratoriun ( Dinamarca).

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