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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O PALCO DA TARDE


A tarde chega naquela praça totalmente desprovida de atrativos, pobre e sem graça, seca e sem cor. Porém o sol se põe deixando uma tênue cor de rosa no horizonte, talvez para o alento de quem passe. Contudo afirmo que não adiantaria ter graça mesmo, pois o lugar estava repleto de uma gente que lutava dia após dia para não perderem o mesquinho dom que tinham de existir repetindo seus dias de mediocridade e nem perceberiam essas nuances.
Seres humanos de aparência feia e linda, jovens e velhos, ricos e pobres democraticamente dividiam este espaço e refaziam os mesmos caminhos todos os dias, para ir aos mesmos lugares: Escolas, restaurantes, hospitais, lojas, escritórios. Falavam os mesmos verbos, os mesmos adjetivos pelos cotovelos, repetindo sem parar as suas idiotas convicções e nada surpreendia, pois o cotidiano era banal e estavam mais que acostumados.
Ser diferente neste lugar era proibido, assim àquele que infligia às regras sofria duras criticas e depois eram isolados, fazendo com que não suportassem e mudassem de cidade, mal sabendo o castigado que assim descobriria a liberdade. Mas o ponto principal realmente era a praça. Neste espaço apontavam, indagavam e rejeitavam qualquer tentativa mínima de autenticidade, até as crianças desse lugar já nasciam aptas a vigiar para criticar:
Um dia eu mesma enquanto anotava umas palavras aleatoriamente para construir algum texto com elas, enquanto observava à tarde, fui indagada por uma linda menina que passava no veículo escolar. O sinal fechou ela aproveitou e gritou apontando para chamar atenção:
 —O que é isso? Perguntou da janela para meu colega que fazia o mesmo que eu, ele ficou meio sem graça. Eu impaciente que sou vendo que o sinal não abria e a menina não parava de atirar a mesma pergunta, respondi com a primeira palavra estranha que me veio a cabeça:
—É performance minha filha, é performance.
O sinal abriu e ela se foi muito feliz com a resposta, compartilhando com os coleguinhas, repetindo a palavra que nem sabia o significado. Mal sabendo ela que já estava dividida por duas linhas finas, pois sabia vigiar os outros e ao mesmo tempo corria perigo por demonstrar felicidade.

Sim, isso mesmo que você deve ter pensando, feliz não era um estado permitido nesse lugar, a não ser que fosse a breve euforia experimentada com a derrota alheia. E voltando ao ponto principal a praça sem graça, aonde todos desfilavam ansiando serem notados e como num grande concurso de vaidades disputavam tudo entre olhares e risos de escárnio. O mais belo, o mais feio, o mais chato, o mais rico, em fim o mais qualquer coisa que fosse. Mal sabiam que o destino comum de todos os que desfilavam todos os fins de tardes naquela praça estava ali a poucos metros, a sete palmos, no solo sagrado que ficava bem no centro daquele palco coletivo de vaidades.
Vampira Dea

sábado, 5 de outubro de 2013

A TIA SOZINHA


Era uma tia muito velha, velhinha mesmo. Minha avó na época que perguntei tinha uns oitenta anos e me disse; Ela já deve estar na casa dos 100, porque quando eu me casei quase menina, ela já estava coroa. Vovó se foi e ela ainda ficou muitos anos.
Vivia só em um lugarejo de praia do interior, numa casinha pequenininha e aconchegante. O quintal era enorme, tinha coqueiro, abacateiro, limoeiro e pé de carambola, o último quando carregado era alugado, a pessoa  que locava tirava o quanto quisesse de frutas.
Comia bem, fazia tudo sozinha, morava só, no verão a casa enchia, de gente, de alegria de confusão, meninos e meninas, casais de namorados, ela ficava entre a alegria e a agonia de ver tanta gente mexendo em suas coisas.Quem chegava sempre levava a latinha de goiabada e a tia sorria o seu sorriso banguela. Se alguém esquecesse um alfinete guardava e no ano seguinte devolvia ao dono, tudo tinha valor naquela casinha. Era o extremo da economia; tirava lâmpada da geladeira pra diminuir a conta da luz, ralava tudo na mão pra não ligar o liquidificador, fazia a gente acender fogueira no quintal pra cozinhar o marisco que pegávamos na maré, só pra não gastar gás.A tv tinha sempre que ficar uma pessoa de plantão, pois se fosse ao banheiro e ela passasse, desligava.
Contadora de histórias, um deleite no tempo em que eu ia ainda criança e não tinha luz, aliás água também não tinha e antes da praia amada, tinha que encher as moringas. Isso no tempo que ainda era costume encher a casa de areia alva da praia e folha de pitanga nos dias de festa.
Só tinha um olho e era manca de uma perna, mas tratava baiacu como ninguém.Fazia moqueca gostosa cheia de limão, coentro e pimenta. Não saía de casa pra nada, as vezes espiava da porta, metade do corpo magro e alto dentro, metade fora, no entanto sabia de tudo que passava no lugarejo, as informações ninguém sabia como chegavam. Na verdade me lembro de vê-la sair uma única vez,indo a praia pra ariar os talheres velhos de prata na areia fina como sal num final de tarde.
Minha avó contava que ela namorou uma década, noivou outra e quando casou o noivo morreu. Desde então vivia sua vida reclusa. Na casinha ninguém tinha permissão pra entrar no quarto e dentro tinha um baú.Perguntava o que tinha e ela se aborrecia. Eu sempre achei que dentro tinha um lindo vestido de noiva, sempre pensava no dia quando se fosse, eu olharia o recheio do baú.
Todos os anos quando o verão acabava se repetiam os chaus e para todos lágrimas escorriam do rosto curtido pelo tempo como casca de árvore,acabavam os risos, a confusão, a anciã voltava para sua solidão. Nunca descobri o que tinha no baú, algum tesouro,tralhas velhas... No fundo acho que eu sabia o conteúdo sim: Ali ela guardava todos os seus sonhos.

domingo, 18 de agosto de 2013

PORTAIS PARA MUNDOS LEGAIS


Quando criança vivia num verdadeiro mundo mágico. Não que minha vida fosse um mar de flores (apesar delas estarem sempre presentes), mas uma coisa que sempre soube foi transitar por esses mundos que os incrédulos afirmam ser simplesmente bobagem. Viajava sempre que me sentia triste pra um destino desses e aí podia ser o que quisesse. Todos me achavam bonita, inteligente, com uma voz maravilhosa. Não tinha medo de nada pois tinha a confiança de que tudo dependia de mim. Sempre estava confiante, tinha muitos amigos, conhecia e aprendia tudo o que precisava. Matemática não me assombrava, guerras também não, na verdade nada me assombrava.Os livros eram os portais desses mundos, começaram com a voz da minha mãe que lia todos os dias pra que eu dormisse, depois com as revistas em quadrinhos herdadas de meu tio Ado. Os livros maravilhosos da biblioteca de tia Cida, os livros que ganhava de meu pai e assim podia ir e voltar sempre que sentisse necessidade.Odiava jornais, eles eram os portais dos mundos que eu não queria estar, na maioria das vezes continham tudo que me amedrontava ou que eu não conseguia entender.
Hoje ainda viajo, mas as viagens estão cada vez mais curtas e cada vez mais estou nos mundos dos jornais...

Vampira Dea

sábado, 16 de fevereiro de 2013

CONTROLE

E o mundo foi se tornando pequeno pra tanta gente, não havia controle nenhum, poluição , barulho, escassez       de alimentos, então o jeito foi controlar tudo. Uma das medidas era a de que ninguém mais poderia nascer, pois os pais pagariam duras penas. E sobe mentiras reconstruíram  a cidade da forma que achavam perfeita. Desesperados os pais que por acidente tinham filhos jogavam no esgoto mais próximo para não deixar rastros.
O que ninguém esperava era o inusitado que acontecia debaixo da cidade perfeita: crianças conseguiam sobreviver e cresciam como praga nos esgotos fétidos, vivendo de restos e falta de amor. ouviam os rumores da cidade, iam entendendo as coisas e descansavam e cresciam esperando o dia da revolução. A cidade nunca estaria preparada... 
Ouça a trilha sonora do conto  CLIK 


domingo, 17 de junho de 2012

O CALOR DA PRINCESA

A história que descrevo pode já ter acontecido com inúmeros tipos de princesas, inclusive as que não são descritas nos livros, não tem olhos azuis e cabelos loiros e tampouco vivem em castelos..
Ela até que era uma menininha bonitinha para os  padrões das princesas dos livros. Se vestia de cor de rosa, tinha olhos azuis, nas primaveras bolos e balões, amiguinhas parecidas com elas. Um pai, uma mãe, uma família que parecia perfeita, bem grande dentro de um lindo castelo, com todos os entes que se podia imaginar e viviam juntos os de longe se visitavam e dormiam nas casas uns dos outros e  dela esperavam sempre toda a perfeição. Ela não acreditava naquele calor falso que circulava a sua vida. Não aguentava as mãos que de vez em quando lhe bolinavam na calada da noite. Tinha tanto medo e nojo que nunca abriu os olhos, nunca soltou um único som, prendia a respiração e pedia para o tempo passar, o tempo passou, ela cresceu com uma fascinação e um ódio mortal. Aquele calor que ela sentia nas horas  que ela queria esquecer, ela transformou aos poucos numa fixação que acabou um dia com uma linda tocha humana que fez ela sorrir, ao ver aquela carne espumando, enquanto dançava ao som da dor, ainda sorrindo ela disse a ele: Te devolvo todo o calor que você me deu.
Vampira



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

UMA MARIA COMO TANTAS OUTRAS

Vida Maria é uma animação de curta metragem realizada no Ceará pelo diretor Márcio Ramos em 2006 por computação gráfica em 3D e conta a história de Maria José uma menina de cinco anos que é obrigada a largar os estudos para trabalhar e nisso vê a sua vida passar sem nunca voltar aos estudos. Com uma atmosfera que parece real, com as cores do sol escaldante do sertão nos emociona quando sem um mínimo de pudor nos mostra uma realidade crua, um circulo vicioso que até hoje se repete transformando pessoas e seus sonhos a uma sorte sem perspectivas. São tantas Marias assim pelo Nordeste, Brasil, mundo e pensar que tanto dinheiro é jogado fora quando poderia ser investido no essencial de cada ser humano que o direito a educação, a saúde, podendo assim exercer a sua autonomia e dignidade, mas preferem que as pessoas cheguem ao ponto da esmola promocional a serem Senhores e Senhoras de suas vidas.
Vejam, se emocionem

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

RECORDAÇÕES DE CRIANÇA

HOJE REPUBLICO TRÊS CONTOS INSPIRADOS EM MINHA INFÂNCIA. ALGUNS ESTÃO NUMA LINHA MUITO PERIGOSA, MAS É A TRADUÇÃO DE MINHAS SENSAÇÕES E TRANSFORMAÇÕES DA ÉPOCA EM QUE CADA SITUAÇÃO ACONTECEU. METAINFORMAÇÕES

SINAL

Ela sempre estava lá. Não importava o dia, a hora, estava porque apesar de tudo achava mais tranquilo aquele lugar que tinha tanto movimento. Ele passava por ali, passava sempre com revistas ou um livro aberto em frente aos olhos tristes e curiosos. Um dia por um momento ele escolheu passar olhando o mundo. Ela estava no alto da torre de meninos que se equilibravam em uma pirâmide humana de molecotes sem dono, que faziam acrobacias em troca de qualquer coisa na sinaleira.
Por um momento mágico os olhos se encontraram, ela do alto da sua torre com seus cabelos emaranhados ao vento, ele do seu carro branco reluzente. Não sabiam explicar mas uma mágica aconteceu. Corações bateram forte e olhos curiosos buscavam o máximo de informações possíveis em trinta segundos. Ela quase errou o número, recebeu um beliscão na canela e pulou no asfalto quente do meio dia se recompondo. Ele se voltou para olhar mais um pouco, o carro se foi, tinha que ir para casa almoçar e depois aula de inglês e natação. Ela ficou no chão.
Por todo resto do dia e começo da noite se lembraram daqueles trinta segundos e ficaram a imaginar se haveria uma outra vez.
No outro dia tudo estava acontecendo como sempre, só que tão lento... A aula não passava, o sinal parecia ficar fechado uma eternidade...Chegou o meio dia,o sinal fechou e dessa vez ela prestou mais atenção no carro branco que dentro tinha um menino de olhos tristes emoldurados por cabelos negros. Eles se olharam, se perguntaram quantos mundos existem dentro desse mesmo mundo, ela teve vontade de parar o número acrobático que fazia, sabendo que iria receber uns cascudos dos colegas por atrapalhar o biscate, ele teve vontade de pedir para o motorista parar o carro, mas sabia que ele diria que não podia, ali era perigoso.Sorrisos foram trocados.
Os trinta segundos de acrobacias e olhares se repetiam, sorrisos trocados as vezes eram acrescidos de tchauzinhos furtivos e um dia ela arriscou e soltou até um beijinho. Eles queriam se falar, saber de que gostavam de brincar, ela queria saber que gosto teria sorvete de pistache ou Maklanchefeliz, se ele tia avó, como era escola e se na casa dele tinha piscina. Ele queria saber como ela conseguia se equilibrar daquele jeito, se tinha dez anos como ele, porque ela não estava na escola e como os olhos dela poderiam ser tão vivos.
Assim seguiu durante muitos meses:Trinta segundos no meio dia, ela trabalhando pra comprar comida, ou melhor cola que enganava a fome por mais tempo e ele voltando da escola construindo sua futura vida bem sucedida e cheia de responsabilidades. Um dia não se viram mais.Ele mudou de cidade nas férias, ela não acostumou a não ver ele na sinaleira, cheirou um pouco a mais de cola do que estava acostumada, para passar a fome e a saudade dos olhos tristes, dormiu e não acordou mais.


CRIANÇAS , FLORES E MORTE
Os tempos de inocência não são os mesmos para todos, alguns chegam a nunca conhecer esses tempos e vai agregando como pode, a sua realidade, uma leveza necessária em tudo, para sobreviver.Quando criança morava em um bairro violento, era comum a morte, de todos os tipos. Minha casa ficava no caminho do cemitério, pobre quando morria naquela época (não sei agora) ia embora em cortejo longo, carregado por amigos, se não tinha muitos amigos a tarefa ficava penosa porque os poucos que estavam presentes levariam a carga sem revezar.E isso tudo passava pela porta da minha casa.
Tínhamos um ritual,eu e meus amigos: Colocar os dedos cruzados nas costas.Acreditávamos que quem não fizesse isso a mãe morria, quem inventou? Quando cheguei já encontrei essa mandiga de menino.

Mas a criançada (bicho estranho criança) não perdia era enterro de anjinho, Aqueles que nem nasciam ou se nasciam nem tinham tempo de respirar da vida. Isso não era por maldade, era para ter a honra de carregar o caixãozinho branco, a coisinha balançando de um lado pra o outro dentro e no final receber um docinho de agradecimento.As vezes tinha até discussão.Jardim de mãe nenhuma tinha sossego, arrancávamos tudo que era vegetal pra levar na mão porque tinha que ter flor e valia de tudo, hibisco, mal-me-quer, maria-sem-vergonha, croto.
Um dia morreu o anjinho de uma vizinha e eu iria acompanhar o enterro até o fim da minha rua, arranquei algumas rosas de minha mãe ( estava cheia de orgulho, porque minhas amigas estavam levando hibisco, que tinha em todo canto) e fui seguindo a multidão. Minha amiga falou pra adiantar e quando cheguei perto do caixão me chamaram pra carregar. O coração bateu forte, segurei na alça e senti uma coisinha saculejando de um lado para o outro, porque a nossa solenidade não mudava o andar espevitado de crianças. Voltei pra casa pensando... Porque existiam histórias tão curtas...
 Uma amiguinha minha a Neguinha (parecia uma índia) era o cão em forma de criança, sabia sempre de tudo, primeiro que todo mundo, sempre vinha com a novidade: Morreu não sei quem, em tal lugar vamos lá ver?


Eu nessa época estava em crise de criança me perguntando e descobrindo que existia um fim, cheia de perguntas sem respostas e com uma curiosidade imensa sobre a morte. Escondida de minha mãe íamos a casa do suposto defunto ou defunta e levantávamos o lençol para ver, eu ficava petrificada olhando aquela coisa que  parecia oca, parecia nada, em cima das mesas pobres, as vezes ainda na rua, no chão com velas.
Parei no dia que levei o maior susto da minha vida. Acordei com Neguinha me gritando do portão, foi logo me dizendo: O vizinho morreu vamos lá ver. O vizinho era um menino de onze anos que toda vida tinha sido doentinho, cabeça enorme, cadeira de roda e eu não me lembro a razão, nunca tinha falado com ele. Fomos na casinha pobre, o corpo esticado na cama, coberto com lençol alvo, velas ao lado. Levamos as flores de praxe, condolências a mãe( que transparecia um rosto bem aliviado) e fomos ao quarto minúsculo, só cabia a cama. Olhamos uma pra outra como que para tomar coragem e Neguinha puxou o lençol.O defunto que tinha acabado de partir e ainda não estava enrijecido, no nosso ato de levantar o pano, fez com que o rosto flácido todo se mexesse, olhos abriram e a boca se escancarou em um sorriso assustador, saímos correndo a chorar e acho que nunca mais fizemos isso. Mesmo morando anos depois com o quintal para um cemitério. 
Fiquei por muito tempo pensando, pensando: Porque alguns já nascem sofrendo... Porque existem histórias tão curtas... Nunca encontrei respostas.Ninguém encontrará.

 Imagem: Mark Ryden
QUANDO AS LAGARTAS VIRAM BORBOLETAS

Ela tinha doze aninhos, um corpinho delicioso de ninfeta, seios despontando pro mundo e um calor entre as pernas que vivia contraindo, na tentativa de alivio e que só fazia uma humidade insistente surgir e obrigá-la a trocar suas calcinhas várias vezes ao dia.
À noite quando ia dormir suas mãos descobriam o corpo que arrepiava a cada toque, lhe causando sensações novas, descobria o prazer, o gozo que abafava no travesseiro. Sonhava muito com garotos, que não lhe davam a mínima. Velhos safados que se ainda estão vivos deveriam estar presos, lhe diziam gracejos.
Vivia a correr com os meninos, que pelo seu comportamento amolecado passava despercebida a vontade louca que ela tinha de dar uns amassos pelos cantos. Naquele tempo ainda havia muitas brincadeiras na rua e ela curiosamente não era muito dada a vaidades como as meninas da sua idade. Contraditoriamente ao fogo que consumia o corpo em transformação, ainda brincava e muito.
Suas colegas não tinham os mesmos encantos que ela, mas eram delicadas, frágeis. Ela não entendia o porquê dos garotos se interessarem tanto por essas meninas, já que com ela brincavam as mesmas brincadeiras e conversavam as mesmas coisas, mas eles preferiram sempre garotas assim, cheias de frescuras. De vez em quando tinha alguém que escapava um segredo: ”Fiz ousadia com Fulano”, ou “Eu vi Beltrano e Ciclana pagando ABC”. O que aumentava a sua curiosidade e vontade.
Espelhos e seus próprios braços eram alvos de constantes, beijos, lambidas, pois queria estar pronta quando chegasse o grande dia, não queria passar pelo vexame de descobrirem que ela não sabia beijar.
Uma bela tarde, se arrumou muito, conseguiu ficar mais linda, cheia de perfume, pintou até as unhas. Os amigos olharam diferente, caçoaram e estranhamente ela não quis brincar de pique, sugeriu esconde-esconde, estava cheia de segundas intenções: Beijar  o menino mais bonito da turma.

Na hora de esconder deu um jeito de ficar com ele, se esconderam detrás do muro de uma casa vazia, ela ofegante se chegou e olhou no fundo dos olhos dele. O menino a empurrou e gritou: Qual é? Beijar você?Você é brother! Saiu correndo gritando dois altos e ela correndo chorando direto para seu espelho e seu travesseiro.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ESCOLA E LIBERDADE, SEM MEDOS

Um dia observando uma aula de artes em uma escola pública percebi que pouca coisa mudou em décadas.Perguntei a professora o que ela seguia e ela me respondeu: “OS SETE SABERES – EDGAR MORIM (O erro e a ilusão, os princípios do conhecimento pertinente, ensinar a condição humana, ensinar a identidade terrena, enfrentar as incertezas, ensinar a compreensão, a ética do gênero humano). Não percebi muito saber naquela forma de ensinar, crianças sentadas em carteiras esperando ordens sem direito de opinar e o pior sem direito de usar a criatividade, não tendo a chance de descobrir.Ela mostrava e traçava cada passo, o que as crianças tinham que fazer igualzinho a ela, senão não teriam nota.Senão ela poderia perder o controle.
Isto é um total absurdo no qual eu conheço por experiência própria quando fazia copias e mais copias em tudo inclusive na aula de arte. Porém no meu tempo a escola era tecnicista, estávamos na ditadura e não importava que as pessoas fossem criativas, mas sim aprendessem o bastante para desenvolver uma única função mecanicamente durante toda a vida. Passou o tempo e me pergunto: Por que evoluímos tão pouco? Terá sido por não termos até hoje estabelecido o que já é lei no PCN ou o PCN é tão contraditório, confuso e retrogrado que não valha a pena?
Se eu já estava confusa fiquei mais ainda, principalmente por ser uma questão direta passou-se uma geração e não houve mudanças significativas. O professor de arte realmente tem uma batalha a travar, contudo se não esta disposto a ser um guerreiro por que tantos professores entram nesta luta, que não é só na área de artes e sim de toda educação. Quando será que os educadores e os poderosos vão entender que as pessoas exercitando a sua sensibilidade e criatividade serão criativas em qualquer setor que sigam ? Vai demorar...
Meu filho quando tinha cinco anos desenhou tudo preto e foi o bastante pra psicológa ser acionada, me chamarem e me bombardearem com todo tipo de pergunta, desconfiando que meu filho passava por algum tipo de violência ou depressão. Quando perguntaram a ele porque desenhava assim ele respondeu com toda naturalidade com a pergunta mais óbvia para uma criança de cinco anos: Desenhei assim porque preto é a minha cor preferida ora!


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A MENINA DA MONTANHA E EU COM UMA MONTANHA DE PRATOS





Num mundo simples ela vivia feliz subindo e descendo na sua montanha, bebendo nuvens e absorvendo a luz do sol que estava muito perto e era o que mantinha suas bochechas sempre rosadas, os mais velhos ensinavam coisas bonitas pra se fazer com as folhas secas, com as lãs de alpaca e com as folhas verdes ou velhas que curavam.Ela sorria, costurava, brincava e vivia sua vidinha sem conhecer o medo ou a incerteza da falta.
Um dia um homem de muito longe subiu a montanha lhe falou de um outro mundo, ensinou coisas que ela ainda pensava ser muito nova para conhecer mas quis conhecer. E assim como subiu a montanha ele desceu, o ventre dela começou a buscar o sol e numa linda noite de frio nasceu uma menina linda.

 O homem subiu mais uma vez e encontrou a menina com outra menina nos braços, olhou como se não fosse nada, acariciou a menina pequena e colocou pra dormir, a menina grande ele manteve acordada e quando o dia chegou ele se foi,não tardou o ventre buscar o sol e não tardou numa noite fria um menino respirar.

O tempo passou a menina da menina cresceu e era tão solitária quanto a primeira menina. elas se olhavam e uma se via na outra e se mantinham vivas fortes, e uma temia que tudo se repetisse e assim foi  duas solitárias no frio.E o homem continuou a subir a montanha muitas vezes.E nada acontecia a ele. Porque essas meninas aceitavam isso?

Desde que o mundo é mundo de diferentes formas e sutilezas com o pretexto de que o homem é sol e a mulher lua, portanto mais sutil e frágil e a velha história do pecado original, nos vemos de alguma forma sempre passadas para trás pelos homens.
Não é um discurso feminista, mas poxa, crianças tendo e criando crianças, mulheres girafas, mulheres castradas, as religiões sempre pegando no nosso pé e dizendo que somos culpadas de tudo,Freud e suas teorias, pedofilia dentro de muitas casas,violência doméstica,carga tripla de trabalho e ufa sei lá acho que nem tem muito nexo as coisas escritas aqui, foi só um desabafo porque meu marido nunca quer lavar os pratos aff


Fotos Dea Mota ( minhas filhinhas da  coleção)

terça-feira, 4 de maio de 2010

CRIANÇA, FLORES E MORTE




Os tempos de inocência não são os mesmos para todos, alguns chegam a nunca conhecer esses tempos e vai agregando como pode, a sua realidade, uma leveza necessária em tudo, para sobreviver.Quando criança morava em um bairro violento, era comum a morte, de todos os tipos. Minha casa ficava no caminho do cemitério, pobre quando morria naquela época (não sei agora) ia embora em cortejo longo, carregado por amigos, se não tinha muitos amigos a tarefa ficava penosa porque os poucos que estavam presentes levarariam a carga sem revezar.E isso tudo passava pela porta da minha casa.
Tínhamos um ritual,eu e meus amigos: Colocar os dedos cruzados nas costas.Acreditávamos que quem não fizesse isso a mãe morria, quem inventou? Quando cheguei já encontrei essa mandiga de menino.

Mas a criançada (bicho estranho criança) não perdia era enterro de anjinho, Aqueles que nem nasciam ou se nasciam nem tinham tempo de respirar da vida. Isso não era por maldade, era para ter a honra de carregar o caixãozinho branco, a coisinha balançando de um lado pra o outro dentro e no final receber um docinho de agradecimento.As vezes tinha até discussão.Jardim de mãe nenhuma tinha sossego, arrancávamos tudo que era vegetal pra levar na mão porque tinha que ter flor e valia de tudo, hibisco, mal-me-quer, maria-sem-vergonha, croto.
Um dia morreu o anjinho de uma vizinha e eu iria acompanhar o enterro até o fim da minha rua, arranquei algumas rosas de minha mãe ( estava cheia de orgulho, porque minhas amigas estavam levando hibisco, que tinha em todo canto) e fui seguindo a multidão. Minha amiga falou pra adiantar e quando cheguei perto do caixão me chamaram pra carregar. O coração bateu forte, segurei na alça e senti uma coisinha saculejando de um lado para o outro, porque a nossa solenidade não mudava o andar espevitado de crianças. Voltei pra casa pensando... Porque existiam histórias tão curtas...
 Uma amiguinha minha a Neguinha (parecia uma índia) era o cão em forma de criança, sabia sempre de tudo, primeiro que todo mundo, sempre vinha com a novidade: Morreu não sei quem, em tal lugar vamos lá ver?

Eu nessa época estava em crise de criança me perguntando e descobrindo que existia um fim, cheia de perguntas sem respostas e com uma curiosidade imensa sobre a morte. Escondida de minha mãe íamos a casa do suposto defunto ou defunta e levantávamos o lençol para ver, eu ficava petrificada olhando aquela coisa que  parecia oca, parecia nada, em cima das mesas pobres, as vezes ainda na rua, no chão com velas.
Parei no dia que levei o maior susto da minha vida. Acordei com Neguinha me gritando do portão, foi logo me dizendo: O vizinho morreu vamos lá ver. O vizinho era um menino de onze anos que toda vida tinha sido doentinho, cabeça enorme, cadeira de roda e eu não me lembro a razão, nunca tinha falado com ele. Fomos na casinha pobre, o corpo esticado na cama, coberto com lençol alvo, velas ao lado. Levamos as flores de praxe, condolências a mãe( que transparecia um rosto bem aliviado) e fomos ao quarto minúsculo, só cabia a cama. Olhamos uma pra outra como que para tomar coragem e Neguinha puxou o lençol.O defunto que tinha acabado de partir e ainda não estava enrijecido, no nosso ato de levantar o pano, fez com que o rosto flácido todo se mexesse, olhos abriram e a boca se escancarou em um sorriso assustador, saímos correndo a chorar e acho que nunca mais fizemos isso. Mesmo morando anos depois com o quintal para um cemitério. 
Fiquei por muito tempo pensando, pensando: Porque alguns já nascem sofrendo... Porque existem histórias tão curtas... Nunca encontrei respostas.Ninguém encontrará.

 Imagem: Mark Ryden

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

ESCOLA


Um dia observando uma aula de artes em uma escola pública percebi que pouca coisa mudou em décadas.Perguntei a professora o que ela seguia e ela me respondeu: “OS SETE SABERES – EDGAR MORIM (O erro e a ilusão, os princípios do conhecimento pertinente, ensinar a condição humana, ensinar a identidade terrena, enfrentar as incertezas, ensinar a compreensão, a ética do gênero humano). Não percebi muito saber naquela forma de ensinar, crianças sentadas em carteiras esperando ordens sem direito de opinar e o pior sem direito de usar a criatividade, não tendo a chance de descobrir.Ela mostrava e traçava cada passo, o que as crianças tinham que fazer igualzinho a ela, senão não teriam nota.Senão ela poderia perder o controle.
Isto é um total absurdo no qual eu conheço por experiência própria quando fazia copias e mais copias em tudo inclusive na aula de arte. Porém no meu tempo a escola era tecnicista, estávamos na ditadura e não importava que as pessoas fossem criativas, mas sim aprendessem o bastante para desenvolver uma única função mecanicamente durante toda a vida. Passou o tempo e me pergunto: Por que evoluímos tão pouco? Terá sido por não termos até hoje estabelecido o que já é lei no PCN ou o PCN é tão contraditório, confuso e retrogrado que não valha a pena?
Se eu já estava confusa fiquei mais ainda, principalmente por ser uma questão direta passou-se uma geração e não houve mudanças significativas. O professor de arte realmente tem uma batalha a travar, contudo se não esta disposto a ser um guerreiro por que tantos professores entram nesta luta, que não é só na área de artes e sim de toda educação. Quando será que os educadores e os poderosos vão entender que as pessoas exercitando a sua sensibilidade e criatividade serão criativas em qualquer setor que sigam ? Vai demorar...
Meu filho quando tinha cinco anos desenhou tudo preto e foi o bastante pra psicológa ser acionada, me chamarem e me bombardearem com todo tipo de pergunta, desconfiando que meu filho passava por algum tipo de violência ou depressão. Quando perguntaram a ele porque desenhava assim ele respondeu com toda naturalidade com a pergunta mais óbviapara uma criança de cinco anos: Desenhei assim porque preto é a minha cor preferida ora!